11/08/2011
FOLHA DE SÃO PAULO RECONHECE IMPORTÂNCIA SOCIAL DO TRABALHO DA ATINI
Funai pressiona e Câmara esvazia projeto de combate ao infanticídio
BERNARDO MELLO FRANCO, ENVIADO ESPECIAL DA FOLHA A BRASÍLIA
Sob pressão do governo, a Câmara esvaziou um projeto de lei que previa levar ao banco dos réus agentes de saúde e da Funai (Fundação Nacional do Índio) considerados "omissos" em casos de infanticídio em aldeias.
A prática de enterrar crianças vivas, ou abandoná-las na floresta, persistiria até hoje em cerca de 20 etnias brasileiras. Os bebês são escolhidos para morrer por diversos motivos, desde nascer com deficiência física a ser gêmeo ou filho de mãe solteira.
A Funai se nega a comentar o assunto. Nos bastidores, operou para enfraquecer o texto com o argumento de que ele criaria uma interferência indevida e reforçaria o preconceito contra os índios.
Do outro lado da discussão, ONGs e deputados evangélicos acusam o governo de cruzar os braços diante da morte de crianças e defendem que o Estado seja obrigado por lei a protegê-las.
A polêmica chegou ao Congresso em 2007, quando o deputado Henrique Afonso (PV-AC) apresentou projeto que previa punir servidores que não tomem "medidas cabíveis" para impedir o ritual.
Eles responderiam por crime de omissão de socorro, cuja pena varia de multa a prisão por até um ano. O texto ainda classificava o "homicídio de recém-nascidos" como uma "prática nociva".
Antropólogos, indigenistas e assessores da Funai pressionaram a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, que adiou a votação da proposta por quatro anos.
Em junho, os deputados decidiram substitui-la por uma versão alternativa da relatora Janete Pietá (PT-SP), que seguiu para a Comissão de Constituição e Justiça e pode ser transformada em lei até o fim do ano.
O novo projeto elimina todos os pontos controversos e descarta a possibilidade de processar autoridades ou servidores pela morte de crianças nas aldeias.
Em lugar de punições, diz que o governo deve oferecer "oportunidades adequadas aos povos indígenas de adquirir conhecimento sobre a sociedade em seu conjunto" em casos de infanticídio, estupro e maus-tratos.
"O texto ficou muito fraco. Vai permitir que o governo continue omisso diante dessas mortes", diz Márcia Suzuki, da ONG Atini, que acolhe mães que fugiram de suas aldeias para proteger os filhos (leia texto abaixo).
"As tradições dos povos indígenas devem ser respeitadas, mas o direito à vida é um valor universal e garantido pela Constituição", afirma o deputado Henrique Afonso.
AUTONOMIA
Responsável pelas mudanças, Janete Pietá diz ter atuado em defesa da autonomia dos povos indígenas.
"Não precisamos de lei, e sim de convencimento. Em vez de penalizar, devemos conversar com as mulheres e fazer campanhas educativas", afirma a deputada.
"A tradição de sacrificar crianças é mantida por poucas comunidades. O Brasil tem mais de 200 povos indígenas. Se isso ainda ocorrer em 20, são apenas 10%."
O Conselho Indigenista Missionário, da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), também pressionou contra o projeto original.
Segundo o secretário-adjunto do órgão, Saulo Feitosa, a prática seria "residual".
"Ninguém defende o infanticídio, mas não podemos aceitar que vendam uma imagem de que todos os índios são selvagens e sacrificam suas crianças."
As autoridades evitam emitir posição oficial ou mesmo divulgar dados sobre o infanticídio nas aldeias.
A Funai informou que não se manifestaria e negou pedido de entrevista com o presidente Márcio Meira.
A Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, criada em outubro de 2010, respondeu que o tema não cabe a ela e afirmou não ter nenhum levantamento sobre as causas da mortalidade infantil de índios.
ONG ACOLHE INDIAS QUE FUGIRAM PARA SALVAR CRIANÇAS
DO ENVIADO A BRASÍLIA
Muwaji Suruwahá, 33, fala poucas palavras em português e vive alheia à discussão sobre o infanticídio em aldeias indígenas. Mesmo assim, foi transformada em símbolo da disputa que, há quatro anos, opõe evangélicos e governo no Congresso.
Chamado de lei Muwaji, o projeto que responsabiliza agentes públicos pela morte de recém-nascidos é inspirado na história dela e da filha Iganani, 8, que nasceu com paralisia cerebral.
Em 2005, a índia deixou sua tribo para evitar que a menina fosse sacrificada, como prevê a tradição de sua comunidade.
Elas vivem hoje na sede da ONG Atini, nos arredores de Brasília. A organização foi fundada por Márcia Suzuki, uma missionária metodista que acusa o governo de negligência com a prática.
"A Funai afirma que a interferência é sempre negativa, mesmo que as crianças estejam em risco. Nós acreditamos que respeitar os índios também significa respeitar e proteger a vida deles", diz.
A tese é contestada pela Associação Brasileira de Antropologia, que acusa os ativistas de repetir métodos dos colonizadores portugueses.
"Tirar índios de suas aldeias para criá-los sob a ética cristã é uma interferência violenta, não um projeto humanitário", diz João Pacheco de Oliveira, dirigente da entidade e professor da UFRJ.
A Atini abriga 12 famílias, que recebem mantimentos e cuidados médicos, e diz ser mantida por doações. A ONG nega vinculação a igrejas, embora os evangélicos sejam maioria entre os voluntários.
Em 2010, a Funai processou outra entidade evangélica, a Jocum (Jovens Com Uma Missão), pela exibição de um suposto documentário sobre o infanticídio.
A Justiça Federal determinou a retirada do vídeo do YouTube por entender que ele incitava o preconceito e causava dano à imagem dos índios sem provar as mortes.
Frases
"As tradições dos povos indígenas devem ser respeitadas, mas o direito à vida é um valor universal e garantido pela Constituição" HENRIQUE AFONSO, deputado pelo PV-AC
"Não precisamos de lei, e sim de convencimento. Em vez de penalizar, devemos conversar com as mulheres e fazer campanhas educativas" JANETE PIETÁ, deputada pelo PT-SP
"O texto ficou fraco. Vai permitir que o governo continue omisso diante das mortes" MÁRCIA SUZUKI, da ONG Atini
14/06/2011
AUDIÊNCIA PÚBLICA DEBATE INFANTICÍDIO EM COMUNIDADES INDÍGENAS
DIA 14/06/2011
LOCAL: Anexo II, Plenário 07
HORÁRIO: 14h30min
A - Audiência Pública:
REUNIÃO DE AUDIÊNCIA PÚBLICA
(Requerimento nº 25/11 dos Deputados Roberto de Lucena e Rosinha da Adefal)
Tema: "Debater a grave situação de crianças indígenas com deficiência e com problemas de saúde conforme relatado no documentário Quebrando o Silêncio, da jornalista Sandra Terena".
Convidados:
SANDRA TERENA Jornalista e produtora do Documentário: "Quebrando o Silêncio"
EDSON BAKAIRI Professor e líder do Movimento Indígenas a Favor da Vida
EDWARD M. LUZ Antropólogo do Núcleo de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento de Povos e Comunidades Tradicionais
Representante do MINISTÉRIO DA SAÚDE/Secretaria Nacional de Saúde Indígena
01/06/2011
LEI MUWAJI APROVADA NA CÂMARA DOS DEPUTADOS
O projeto de lei é conhecido como LEI MUWAJI, em homenagem a Muwaji, uma mulher da etnia suruwahá que decidiu abandonar seu povo para poder manter viva sua filha que sofre de paralisia cerebral. Hoje Muwaji vive na "Casa das Nações", uma comunidade indígena multicultural mantida pela ATINI no Distrito Federal. O primeiro rascunho do texto da Lei Muwaji foi feito pelo líder indígena Eli Ticuna, que é também o diretor-adjunto da ATINI.
Indígenas presentes no plenário de votação nesta manhã festejaram a aprovação e parabenizaram a Deputada Janete Pietá (PT - SP), relatora do projeto. O texto da Lei Muwaji que foi aprovado hoje prevê que o Estado deve desenvolver programas de conscientização e educação em direitos humanos nas comunidades indígenas, visando à proteção de crianças em risco por questões de origem cultural. Eli Ticuna comemorou:
"- Realmente é uma grande vitória para o bem de nossos pequeninos!"
Comissão aprova proposta que assegura direitos de crianças indígenas
Agência Câmara de Notícias
02/06/2011 - Brizza Cavalcante
A Comissão de Direitos Humanos e Minorias aprovou na última quarta-feira (1º) proposta que estabelece medidas para assegurar os direitos à vida e à saúde de crianças indígenas. O texto aprovado é substitutivo da deputada Janete Rocha Pietá (PT-SP) ao Projeto de Lei 1057/07, do deputado Henrique Afonso (PV-AC).
De acordo com a proposta, caberá aos órgãos responsáveis pela política indigenista promover iniciativas de caráter conscientizador, quando forem verificadas, mediante estudos antropológicos, as seguintes práticas: infanticídio; atentado violento ao pudor ou estupro; maus tratos; agressões à integridade física e psíquica de crianças e seus genitores.
O substitutivo reafirma o respeito e o fomento às práticas tradicionais indígenas, sempre que as mesmas estejam em conformidade com os direitos fundamentais previstos na Constituição e com os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos. O texto acrescenta artigo ao Estatuto do Índio (Lei 6.001/73).
Mudança
O projeto original obriga qualquer pessoa com conhecimento de práticas “nocivas” à vida e à integridade físico-psíquica de crianças indígenas a comunicar o fato à Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e à Fundação Nacional do Índio (Funai). Conforme o projeto, o fato também deve ser informado ao conselho tutelar da criança da respectiva localidade ou, na falta dele, à autoridade judiciária e policial. A pena para a pessoa ou autoridade pública que se omitir será de seis meses a um ano de prisão, além de multa.
Para a relatora, não há, no entanto, a necessidade de “interferência” externa nas comunidades, mas sim de iniciativas de caráter conscientizador. Pietá também considerou controverso o uso do termo “nocivas” para denominar algumas práticas tradicionais dos povos indígenas. “O uso do termo atribui, mesmo que implicitamente, a pecha de cruéis a esses povos e, por conseqüência, deixa de considerar sua pluralidade cultural, colocando-os à margem da sociedade”.
Tramitação
O projeto será analisado agora pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania em, em seguida, pelo Plenário.
Reportagem – Lara Haje
Edição – Paulo Cesar Santos
'Agência Câmara de Notícias'
08/05/2011
CORAÇÃO DE MÃE
A ATINI tem a alegria de homenagear hoje todas as mês indígenas. Neste ano escolhemos homenageá-las na pessoa de Tejuyalo - mulher batalhadora, amorosa e dedicada mãe de 3 lindas crianças. Para proporcionar oportunidade de vida com dignidade e justiça para seu filho mais novo, portador de necessidades especiais, Tejuyalo tomou a difícil decisão de deixar sua aldeia por tempo indeterminado, e mudar-se para a Casa das Nações. Ali ela sabe que poderá criar seu filho num ambiente seguro, onde a diferença é respeitada e onde toda criança tem direito à vida! Além disso a Casa das Nações é uma aldeia multi-cultural, onde povos indígenas de diversas etnias têm a oportunidade de preservar sua língua e cultura, ao mesmo tempo que aprendem a conhecer e a conviver de maneira saudável com a sociedade nacional. Parabéns, Tejuyalo, pela decisão! Parabéns a todas as mães da ATINI!
21/04/2011
USP - Professora aborda a vulnerabilidade da mulher indígena
15154 - INFANTICÍDIO E MORTE INTENCIONAL DE CRIANÇAS EM GRUPOS INDÍGENAS BRASILEIROS: GÊNERO E IDENTIDADE ÉTNICA COMO FATORES DE VULNERABILIDADE
VALÉRIA TRIGUEIRO SANTOS ADINOLFI - USP/UNICID
20/04/2011 - 13:30 - 16:30
V Congresso de Ciências Sociais e Humanas em Saúde=
08/03/2011
DIA INTERNACIONAL DA MULHER
28/01/2011
ATINI SOU EU
"Passamos nossa vida lutando por aquilo que acreditamos ser correto, porém hoje entendo que existem causas e CAUSAS. Um exemplo de uma causa que vale a pena é a causa da ATINI, que luta para dar voz aos indígenas que escolheram a VIDA. Sabemos que a vida, teoricamente, é o bem maior a ser preservado nas mais diversas leis, nacionais e internacionais. Mas na prática não é isso que a gente vê.
Sou voluntário de Itajaí e estou dedicando parte de minhas férias como cuidador na chácara da ATINI. Um dia destes eu estava conversando com a precursora deste movimento entre os indígenas, a jovem Muwaji Suruwahá. Perguntei a ela qual era o significado da palavra ATINI em sua língua. A resposta que recebi foi surprendente. Ao invés de me explicar o significado da palavra em si, Muwaji me respondeu com simplicidade:
- Diego, ATINI SOU EU, que não quis entregar iganani para ser morta, mas escolhi cuidar dela e vê-la crescer .
Muwaji escolheu não matar sua filha, condenada por ter problemas de desenvolvimento motor devido a uma paralisia cerebral. Ela escolheu seguir um caminho diferente e pedir ajuda. Confesso que por alguns minutos fiquei embaçado com sua resposta, tomado pela felicidade de constatar que não somos só nós, os chamados “civilizados”, que entendemos a profundidade e importância desta causa. Ficou claro para mim que os indígenas atendidos pela organização entendem a importância desse grito que soltaram em favor de suas crianças e da vida.
Depois dessa conversa fiquei ainda mais firme e consciente de que estamos sim no caminho certo, que é o caminho de dar voz àqueles que por muito tempo não a tiveram. Hoje, quando ando pela chácara, posso ouvir muitas risadas e rostinhos das mais diversas etnias e com isso respiro aliviado pois o choro abafado pela terra de uma cova foi trocado pela alegria de ter tido mais uma chance de vida."
Depoimento de Diego Luiz Felício, voluntário na ATINI durante o mês de janeiro de 2011.
Muwaji vive em Brasília com seus filhos Iganani, Irurai, Ahuhari e Inikiru. Recentemente ela pediu que Ahuhari, seu filho adolescente, fosse levado para passar uma temporada na casa de amigos numa chácara em Porto Velho. Esta chácara pertence à organização JOCUM e lá moram duas famílias de missionários que já viveram na aldeia suruwahá, falam a língua e conhecem bem a cutura indígena. Como Ahuhari já é adolescente, segundo a cultura suruwahá, rapazes adolescentes devem sair para passar temporadas longe da mãe, como parte importante do seu desenvolvimento. Muwaji pediu então que Ahuhari fosse visitar estes amigos missionários em Porto Velho por um período. Enquanto está lá, Ahuhari está participando de cursos de educação indígena com jovens indígenas de diversas etnias.
08/11/2010
AJUDE UMA CRIANÇA INDÍGENA SOBREVIVENTE DO INFANTICÍDIO
BANCO DO BRASIL Agência 2727-8
Conta Corrente 13645-X
ATINI - VOZ PELA VIDA
CNPJ 08.580.772-0001-51
27/08/2010
Jornalista indígena mostra em documentário histórias de sobreviventes do infanticídio indígena
O infanticídio ainda é uma prática existente em algumas aldeias indígenas do Brasil. Em geral, as vítimas são gêmeos, deficientes ou nascidos de relações instáveis, de acordo com crença de cada comunidade. Sandra Terena, jornalista e documentarista responsável por essa obra, ressalta que o objetivo principal é promover o debate sobre o tema entre os indígenas, e não influenciar sua cultura.
Em seu registro de nascimento fornecido pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Sandra é Alyeté, que significa pessoa meiga. Seu avô é um dos fundadores da aldeia Icatu, onde veio sua família, da etnia terena, localizada no oeste paulista, próximo a região de Bauru e Araçatuba. Seu pai foi para a Curitiba (PR), aos 18 anos, para servir ao quartel. Lá conheceu a mãe de Sandra. “Vivi uma vida dupla na infância. Ora na cidade, ora na aldeia”, revela a jornalista.
Desde os 11 anos Sandra acompanha seu pai em movimentos indígenas. A jornalista participa de congressos, manifestações, reivindicações, encontros e outras ações. Aos 18, com dificuldades de financiar uma faculdade, Sandra recebeu uma bolsa de estudos da FUNAI para cursar jornalismo em uma universidade privada. “Agarrei essa oportunidade com todas as minhas forças. Pegava dez ônibus por dia para ir e voltar da universidade. Passei por algumas dificuldades”, lembra. Recentemente, fez ainda uma pós-graduação em Cinema na Pontifícia Universidade Católica. Atualmente ela é presidente da ONG Aldeia Brasil. Conheça o porquê da escolha do tema, a trajetória da edição e outras curiosidades sobre essa produção na entrevista abaixo:
Portal Setor3- Por que abordar o tema infanticídio indígena?
Sandra Terena - Quando eu era pequena, o meu pai contava que há muito tempo havia o infanticídio. Pensava que essa prática era do passado. Soube que essa prática ainda existia, mas já tinha muitas famílias e, principalmente, mães que não queriam mais isso e, mesmo assim, sofriam com a perda de seus filhos. Eu sou mãe, e, ao imaginar o sofrimento dessas pessoas, cheguei a conclusão que eu deveria fazer alguma coisa, embora sem ter ideia de como poderia colaborar. O documentário foi uma forma que encontrei de trazer o assunto à tona nas comunidades para que o tema fosse debatido de forma aberta, com respeito e responsabilidade por quem sofre com essa prática.
Portal Setor3- Essa prática ainda é muito comum? Em quais comunidades em especial?
ST- Atualmente são, no mínimo, 20 povos que tem como hábito a prática do infanticídio. O filme mostra diversas comunidades na região do Xingu, por exemplo, podemos citar os kuikuro, kamayurá, waurá. Estou citando aleatoriamente, o que não quer dizer que essas etnias a praticam em maior número.
Portal Setor3- Em sua avaliação, por que essa prática acontece? Há alguma comunidade específica que defende tal ação?
ST- Sobre isso existem diversas teorias, como o fato de a permanência de uma criança considerada “amaldiçoada” trazer algum azar para a comunidade indígena, como o acontecimento de uma catástrofe natural, má sorte na colheita, ou na pesca, mas boa parte dessas teorias são conhecimentos que fazem parte da história oral. Em alguns povos, há 300 anos não era possível um filho de mãe solteira sobreviver, pois não haveria a figura do caçador, por exemplo. Por isso essa prática tinha um porquê. Hoje, existem outras formas de sobreviver que vão além da caça - uma atividade muito importante ao nosso povo. Dessa forma, muitas famílias entendem que não é mais preciso matar os seus filhos. Não encontrei uma comunidade específica que defendesse essa prática. Não posso falar por todos. Somos mais de 230 povos espalhados pelo Brasil. Mas posso falar pelo meu povo e pelos povos que tive a oportunidade de conversar. Existe uma parcela da população, principalmente entre os mais velhos, que resiste ao diálogo. No entanto a grande maioria das lideranças e mulheres está a favor da vida. O principal problema é conseguir políticas públicas para isso. Um cadeirante dificilmente viveria hoje em uma aldeia no alto Xingu. Uma criança que precisa fazer hemodiálise três vezes por semana sai muito caro aos cofres do governo. Então é fácil dizer: “Isso é da cultura, não vamos interferir”.
Portal Setor3- Como foi o processo de pesquisa desse tema? Quais foram as principais dificuldades? Como conseguiu conversar com 350 mulheres indígenas? Como você fazia a procura, por etnia? Como balancear os depoimentos?
ST- O documentário, antes de ser realizado, teve um extenso trabalho de pesquisa documental, bibliográfica e de campo nas aldeias, onde a gente tinha informação de que havia a prática do infanticídio. Por algumas aldeias serem bem afastadas de grandes centros urbanos, foi feito todo um planejamento logístico e com estrutura. Em todo o trabalho nos utilizamos dos recursos da metodologia científica para executarmos o documentário, isso nos permitiu analisar os riscos, e, ao mesmo tempo, nos deu mais confiança para viabilizar o projeto mesmo com pouco recurso. O trabalho todo foi possível, porque tivemos voluntários que prontamente se disponibilizaram a colaborar, doando recursos financeiros, tempo, talento e o seu trabalho. Na minha opinião, o documentário é resultado de todos os envolvidos acreditarem que esse trabalho poderia ser feito, e que daria certo e deu; e tem mostrado bons resultados.
Acredito que a principal dificuldade foi conseguir recursos para viabilizar o documentário, pois a execução do filme envolveu custos com os deslocamentos da equipe para as aldeias e para a casa das famílias de indígenas que moram na cidade. Também posso citar o cansaço físico, por conta da distância foi uma das dificuldades que enfrentamos. Para você ter uma idéia para eu chegar no Xingu, saí de Curitiba, fui para Brasília e de lá peguei um ônibus que iria até a cidade de Canarana, no Mato Grosso, essa viagem durou 15 horas, chegando lá percorremos mais duas horas de caminhonete até atingir a beira do rio Xingu, onde entramos num barco e fizemos mais um percurso de 10 horas pelo rio. Em relação ao ambiente não tive nenhuma surpresa, porque já estou acostumada a visitar várias aldeias indígenas. Foi bastante gratificante entrevistar as mulheres, elas foram muito atenciosas, mas, por outro lado, foi uma tarefa bastante trabalhosa visto que falamos com bastante gente. Foi muito difícil balancear os depoimentos, eles eram muito ricos, o que rendeu várias horas de fitas, mas procuramos alinhar o documentário no sentido de mostrar que o infanticídio existe e os efeitos colaterais que essa prática causa nas suas comunidades.
Portal Setor3- Em alguns depoimentos, smostraram críticas a ONGs, antropólogos, etc. Alguns indígenas afirmaram que esses profissionais não entendem a cultura indígena. De que forma os próprios indígenas podem ser protagonistas de suas mudanças, de sua valorização cultural?
ST- Para alcançarmos isso, acho que tudo passa pela educação. Muitas políticas públicas que dizem respeito ao índio caminham sempre com morosidade, e isso atrapalha. É preciso ter ensino de qualidade para as crianças. Elas precisam aprender a língua e a qualidade desse ensino precisa melhorar bastante. Tem casos de crianças, posso dizer aqui pelo Paraná, que passam dois ou três anos no ensino fundamental e acabam reprovando, porque não conseguem acompanhar. Há professores que fazem curso de capacitação para atuar nas escolas dentro das aldeias, mas esse trabalho precisa ser sempre avaliado para ver se o ensino está cumprindo com a necessidade. A partir do momento em que você conhece a sociedade e passa a entendê-la da mesma forma que ela, você consegue discutir de igual para igual.
Portal Setor3- Como se dá o processo de exibição desse documentário nas próprias comunidades indígenas? Como foi a escolha para exibir em 200 comunidades com ajuda da Atini – Voz pela Vida?
ST- Fiz questão da primeira exibição do filme ser realizado no Parque do Xingu, em um encontro de mulheres. Todos assistiram com muita atenção. As lideranças me respeitaram muito. Houve grande apoio dos povos que lá estavam. Houve ainda uma parcela de pessoas que se mostraram resistentes a questão. A ocasião foi bastante oportuna, porque tinha mulheres de mais de 10 povos, do baixo, médio e alto Xingu. Eu pude perceber que as mulheres falaram abertamente sobre o tema e elas esperam receber apoio que resulte em melhorias para se minimizar o sofrimento emocional e social em torno do infanticídio. Identifiquei que elas assistiram ao filme com atenção e não se sentiram lesadas ou ofendidas, até porque em todas as etapas do filme nos preocupamos muito com isso, de maneira alguma queríamos fazer algo que fosse provocativo, sensacionalista e que fizesse julgamento de valor com as comunidades documentadas. Também foi interessante ver que muitos ficaram felizes de se verem no vídeo e ao demonstrar preocupação no sentido de se encontrar uma solução para essa questão. Eu sei que o filme está rodando o Brasil, tanto nas aldeias, como em diversos setores da sociedade, eventos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e em exibições seguidas de debates nas universidades e emissoras de tevê. Para mim, isso é bastante positivo, porque, se há mobilização, mostra interesse pela causa e propor soluções que visem em melhorias para quem vivencia essa questão que são os indígenas que estão nas aldeias e para as famílias que hoje moram na cidade. O filme tem sido exibido em diversas aldeias de todo o Brasil e o objetivo é gerar discussão sobre o tema.
Portal Setor3- Quais resultados foram significativos com realização desse documentário?
ST- O filme também foi lançado em Brasília, no Memorial dos Povos Indígenas no dia 31/03. Por conta do lançamento e da relevância do tema, o filme tem tido uma divulgação na mídia, tanto no cenário nacional como local, inclusive repercussão na França. O filme está na internet, no site e no Youtube. Outro ponto favorável é que foi traduzido para o inglês e isso vai aumentar a divulgação no exterior. Creio que essas ferramentas de alguma forma vão ajudar a conseguir mais recursos para que possamos viabilizar a exibição, seguida de debate nas aldeias de todo o País. O filme também recebeu o Prêmio Jovem da Paz na categoria comunicação e Prêmio Voluntariado Transformador na categoria redução da mortalidade infantil. Os prêmios foram gratas surpresas. Estamos tão envolvidos com o trabalho que, às vezes, não temos tempo para pensar nisso. Nós sabíamos que havia um grande interesse público e relevância social nesse projeto. Esse reconhecimento certamente é muito importante. No entanto, esses prêmios não vão valer nada, se não atingirmos o objetivo que é exibir o filme pelas aldeias do Brasil, para que o nosso povo possa refletir sobre o infanticídio, para que políticas públicas saíam das nossas bases e das lideranças tradicionais das aldeias.
Serviço: |
| Título: Quebrando o Silêncio Direção: Sandra Terena. Roteiro: Sandra Terena, Oswaldo Eustáquio, André Barbosa e Christina Barbosa. Produção: André Barbosa. Narração: Sandra Terena. Direção de fotografia: André Barbosa. Edição: Sandra Terena e Christina Barbosa. Finalização: André Barbosa. Imagens adicionais: Enock Freire. Imagens da reunião Parque Xingu: Gustavo Domingos. Pesquisa: Edson Suzuki. Apoio documental: Márcia Suzuki. Som direto: André Barbosa e Kakatsa Kamayurá. Tradutores: Cacique Aritana Yawalapiti (idioma “Yawalapiti”), Francisca Irving (idioma “Jarawara”), Kakatsa Kamayurá e Karatsipa Kamayurá (idioma “Kamayurá”). Trilha sonora original: Marcos Vicente Site:www.quebrandoosilencio.blog.br |
26/07/2010
MARINA SILVA, POTIRA E OS MILAGRES AMAZÔNICOS

Esta é uma daqueles cenas que a gente custa a apagar da memória. No meio de uma conferência importante, de gente grande, eis que uma menininha linda e despachada se aproxima da ilustre preletora. Com toda desenvoltura entrega-lhe um colar indígena, tasca-lhe um beijo estalado e posa sorridente para as fotos.
A preletora ilustre chama-se Marina Silva. A indiazinha despachada será chamada aqui de Potira.
Quanto mistério, quanta dor, e quanta esperança este encontro evoca. As duas nasceram na floresta amazônica, as duas enfrentaram a dureza da vida na mata. As duas estavam destinadas a engrossar as fileiras de brasileiras excluídas, anônimas e invisíveis.
Marina nasceu filha de seringueiro, tomou muito banho de igarapé e comeu pirarucu com farinha nas beiradas dos rios. Potira nasceu filha de índia solteira e por isso não chegou a comer nada, não tomou banho, nem lhe cortaram o cordão umbilical.
Marina ouvia as histórias do avô enquanto espiava a chama fina da lamparina nas noites escuras da mata. Potira não ouviu nada, só o choro abafado da mãe, obrigada a abandoná-la na floresta por conta da sua solteirice.
Marina imaginava o futuro enquanto se embalava na rede e sonhava um dia aprender as letras. Potira não teve rede, foi enrolada numas folhas de bananeira brava e largada perto de um toco de pau na beira da capoeira.
Marina se vestia com camisa de manga comprida para se proteger dos carapanãs e dos marimbondos, enquanto seguia o pai pelas picadas estreitas do seringal. Potira não conseguiu se proteger das formigas que se aproximaram e começaram a comer a placenta ainda ligada ao seu corpinho recém-nascido. Nem dos insetos que picaram suas pernas e seu rosto naquela noite comprida e chuvosa.
Marina mudou seu destino quando desafiou a sorte - teve coragem de pedir ao pai que a deixasse sair para estudar na cidade grande. A esperança de Potira surgiu quando duas tias decidiram escondê-la numa roça velha e correr por 4 horas na mata até o acampamento dos missionários.
Marina esperou até os 16 anos para conseguir decifrar as primeiras letras do alfabeto. Potira esperou 36 horas na mata até ser resgatada e salva da morte.
Dois milagres, duas histórias de superação, de desafio às leis da probabilidade. Marina aprendeu a ler no Mobral, veio a ser professora, doutora, senadora, ministra. Hoje é candidata a presidência da república. Potira foi adotada por uma professora paulistana casada com gaúcho, e ganhou duas irmãs rondonienses. É a caçula e o xodó da família.
O encontro da foto aconteceu recentemente num grande evento público em Brasília. Potira entregou a Marina Silva o colar em nome das crianças indígenas sobreviventes do infanticídio que são atendidas pela ATINI.
Em seguida, Kakatsa Kamaiurá, secretário geral da organização, também sobrevivente, tomou o microfone e fez seu apelo. Queria saber de Marina se ela se comprometia a defender o direito das crianças indígenas em risco de infanticídio. Marina respondeu emocionada que toda criança tem direito à vida e que ela priorizaria, em seu governo, os direitos dessas crianças.
Potira saiu toda saltitante, rindo orgulhosa por ter tirado foto com uma mulher tão importante. Criança é criança e ponto final.
15/07/2010
FIORELLA E EMEKA SE DESPEDEM DA ATINI...

A advogada peruana Fiorella Castiglioni e o engenheiro nigeriano-canadense Emeka Nzekwu , se despedem depois de 3 meses vivendo na chácara "Casa da Nações" em Brasília, e servindo as crianças e famílias indígenas da ATINI. Foram meses de experiências profundas, de muito aprendizado e de muito trabalho.
Os dois vieram para a ATINI como trainees do programa internacional de intercâmbio da AIESEC, e trabalharam como voluntários na chácara durante este período. Emeka e Fiorella desenvolveram atividades culturais e educativas com as crianças e jovens, além de trabalharem na produção de material de conscientização sobre a situação das crianças indígenas brasileiras, em inglês, francês e espanhol.
O estágio deles está chegando ao fim e certamente vão deixar muitas saudades. Nosso desejo é que eles sejam muito felizes e que continuem espalhando alegria, competência e compromisso social por onde passarem.
22/05/2010
ATINI PARTICIPA DA ONDA VERDE
A Onda Verde é uma campanha plurianual que visa conscientizar as pessoas sobre a importância da biodiversidade. Ela reforça o trabalho em Comunicação, Educação e Conscientização do público dentro do programa da Convenção para a Diversidade Biológica (CDB), entidade que lidera o movimento no mundo.
Desde 2007, a Onda Verde celebra mundialmente o Dia Internacional da Diversidade Biológica (IDB). Ela também apóia outras iniciativas nacionais, internacionais e globais de plantio de árvores, tais como a campanha “Um Bilhão de Árvores”, liderada pelo PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente).
(fonte www.ondaverdefundacao.wordpress.com)
ATINI - PROTEGENDO A BIODIVERSIDADE E A DIVERSIDADE CULTURAL
Cientes da importância da preservação da biodiversidade, e já estando envolvidos com a proteção da vida das diversidades culturais, nós da ONG ATINI – Voz Pela Vida, decidimos aderir ao movimento ONDA VERDE promovido pela Fundação O BOTICÁRIO de proteção ao Meio Ambiente.
Como ONG nossa movimentação foi a de juntar os indígenas das 5 diferentes etnias assistidas pela organização e trazer a conscientização da importância de se preservar a biodiversidade que eles próprios utilizam em sua dieta diária.
Nosso DIA 21 de Maio começou movimentado. Logo cedo os indígenas e voluntários da organização se reuniram para se pintar e conversar sobre a importância do movimento e se preparar para o plantio das árvores. Logo em seguida adultos, crianças, indígenas e não-indigenas seguiram para os locais destinados ao plantio das mudas, aqui mesmo na sede da ATINI.
Foram plantadas 10 mudas de árvores frutíferas nativas do cerrado brasileiro, região onde fica nosso terreno. Entre as mudas plantadas estavam: Ingá, Jatobá, Pimenta da Jamaica, Laranja Pêra e Pêra. As mudas foram plantadas em lugares estratégicos da chácara, de acordo com as características específicas de cada planta.
Nosso compromisso a longo prazo é de seguir o caminho da proteção ao meio ambiente e da conscientização dos indígenas assistidos e também dos voluntários.
27/04/2010
22/04/2010
DOCUMENTÁRIO DE SANDRA TERENA É CITADO EM PLENÁRIA NA CÂMARA DOS DEPUTADOS
Até hoje os pais da crianças lamentam a morte do bebê.
Deputado paranaense usa o plenário para falar sobre filme de jornalista paranaense
A jornalista e documentarista paranaense Sandra Terena, uma das poucas jornalistas indígenas do Brasil, saiu do anonimato com o documentário “Quebrando o Silêncio”. Finalizado em 2009 com recursos próprios, o filme já conferiu à diretora dois prêmios e está despertando interesse pelo Brasil. O filme, que tem apoio da entidade brasiliense Atini – Voz Pela Vida em sua produção e divulgação, retrata a vivência de algumas tribos em relação ao infanticídio indígena. Crianças que são filhos de mãe solteira, gêmeos ou deficientes físicos são sacrificadas em nome da cultura.
No dia 19 de abril, dia do índio, o deputado federal Íris Simões (PR-PR) usou a tribuna do Congresso Nacional para chamar a atenção dos deputados para a prática de matar crianças indígenas. “Fui surpreendido, neste fim de semana, por uma carta que recebi da jornalista e indígena Sandra Terena que relata a preocupação sobre um documentário que realizou e lançou em Brasília no dia 31 de março deste ano sobre o infanticídio”. Em seu discurso, Simões pediu de forma veemente uma atitude da Câmara. “A Comissão de Direitos Humanos, nos próximos dias, vai fazer um debate sobre essa questão, mas é latente que nós temos que fazer alguma coisa”, disse Simões.
A jornalista Sandra Terena, que estava em Belo Horizonte para participar de um programa ao vivo na Rede Minas de Comunicação, sobre o centenário do indigenismo no Brasil, enviou mensagens de solidariedade aos manifestantes. “Este ano comemora-se cem anos de trabalhos com os povos indígenas. Nós, índios, não queremos mais que decidam por nós, não queremos mais ser integrados, como prevê o estatuto do índio. Temos autonomia para decidir o que é melhor para nós. E, nas entrevistas do filme Quebrando o Silêncio percebi que muitos dos meus parentes não querem mais matar as nossas crianças”, diz Sandra.
O líder xinguano Kakatsa Kamaiurá também emocionou parlamentares e assessores com sua fala. “Ei autoridades, vocês falam de nós sem nos conhecer. Vocês decidem por nós sem conhecer as nossas necessidades. Vocês nunca caçaram comigo. Não sabem o que o índio precisa. Ei deputados, deixa o índio falar, deixa a liderança kamaiurá falar”, disse.
Devido à repercussão deste tema, a Unicef, em 2009, abriu um edital para pesquisadores emitirem um relatório sobre a questão do infanticídio no Brasil. Quem está à frente deste trabalho é a antropóloga Mariana de Holanda. Este trabalho é contestado por organizações indigenistas porque os indíos reivindiam ter voz ativa nessa questão e por isso a pesquisa realizada pela jornalista indígena Sandra Terena, que resultou no filme Quebrando o Silêncio, deveria ter sido levada em consideração de forma pública. Em um depoimento no portal Amazônia.org, Mariana diz que "uma criança indígena quando nasce não é uma pessoa. Ela passará por um longo processo de pessoalização, no qual as relações que for estabelecendo serão fundamentais para que adquira um nome e, assim, o status de 'pessoa'. Portanto, os raríssimos casos de neonatos que não são inseridos na vida social da comunidade não podem ser descritos e tratados como uma morte, pois não é. Infanticídio, então, nunca".
No artigo: A Estranha Teoria do Homicídio Sem Morte, Márcia Suzuki, conselheira da Atini, revela que alguns antropólogos e missionários brasileiros estão defendendo o indefensável. “Através de trabalhos acadêmicos revestidos em roupagem de tolerância cultural, eles estão tentando disseminar uma teoria no mínimo racista”. A teoria de que para certas sociedades humanas certas crianças não precisariam ser enxergadas como seres humanos.
Nestas sociedades, matar essas crianças não envolveria morte, apenas interdição de um processo de construção de um ser humano. Mesmo que essa criança já tenha dois, cinco ou dez anos de idade. “Somos contra esse posicionamento. A partir do momento em que as mulheres e lideranças indígenas se manifestaram a favor da vida é obrigação do governo e sociedade prover meios para que essas crianças possam sobreviver. Para que isso possa se tornar realidade é preciso que o governo pense políticas públicas para atender essa questão. Sandra concorda. Para ela, essas políticas devem vir das bases, das lideranças tradicionais das aldeias.” Sou a favor de uma ampla consulta pública nas cinco regiões do Brasil e de preferência nas aldeias. Chega de decidirem por nós. Este é um momento que o protagonismo deve ser indígena”, afirma.
29/03/2010
08/03/2010
DIA INTERNACIONAL DA MULHER
A ATINI tem imensa alegria em homenagear as mulheres indígenas.
Mulheres que vivem hoje momentos difíceis, de intensas transformações nas relações interétnicas em nosso país.
Mulheres que precisam de sabedoria para ajudar as novas gerações a não perder a sua identidade étnica nem sua dignidade pessoal neste processo histórico.
Mulheres que são ao mesmo tempo fortes e delicadas, ao mesmo tempo conciliadoras e questionadoras.
Mulheres que são guardiãs de culturas ancestrais, mas que estão sempre buscando transfomação social e esperança.
Mulheres que amam suas crianças, mulheres genuínas, mulheres de verdade.
Homenageamos Muwaji Suruwahá, que precisou se afastar de seu povo para garantir a vida e a dignidade de sua filha Iganani, portadora de paralisia cerebral.
Homenageamos Kamiru Kamaiurá, que enfrentou uma tradição ancestral, resgatou um bebê que havia sido enterrado vivo, e o adotou como filho.
Homenageamos Diva Kayabi, que adotou três bebês xinguanos que seriam enterradas vivos, e depois fundou uma ONG para defender o direito das crianças do Xingu.
Homenageamos Celina Sateré-Mawé, que construiu um barracão de palha no quintal de sua casa e diariamente oferece alimentação e educação para 30 crianças indígenas carentes do seu bairro.
Homenageamos Sandra Terena, jornalista indígena, que dirigiu um documentário emocionante que mostra pais de crianças sobreviventes compartilhando sua alegria por terem tido a coragem de salvar seus filhos.
Homenageamos também Tejuyalu Waura, Juruka Kamaiurá, Hélia Sateré-Mawé, Lili Terena, Kaitsuka Kamaiura, Sarah Kamaiurá, que junto com as cuidadoras Vanilda, Damares e Graci, estão construindo um futuro de esperança para nossas crianças indígenas! Parabéns a todas as mulheres da ATINI!
21/02/2010
CINEASTA CARIOCA DEMONSTRA SOLIDARIEDADE COM OS POVOS INDÍGENAS
A PARTIR DO FILME HAKANI"
Com experiência em TV, vários documentários e vídeos institucionais produzidos, além de trabalhos realizados na Africa, João decidiu usar sua experiência numa das causas sociais mais fascinantes que ele conhece - a luta das famílias indígenas dissidentes, que não aceitam a prática do infanticídio.
João Luiz passou 2 semanas em Brasília, na chácara da ATINI, acompanhando o dia-a-dia das famílias indígenas e da equipe de cuidadores. Documentou as crianças em atendimento médico, de volta às aulas, e brincando nos jardins da chácara. Além disso documentou a participação dos jovens indígenas em atividades do dia a dia, ordenhando as vacas, pescando tambaqui no tanque e coletando frutas no pomar.
João aprendeu muito sobre cultura indígena, comeu beiju de tapioca kamaiurá, saboreou tambaqui e matrinchã assados com muita pimenta e tomou mingau de piqui. Ganhou um colar tradicional xinguano feito de placas de caramujo, participou de muitas festas e de uma cerimônia de guaraná típica do povo sateré-mawé.
Além disso, João Luiz teve a oportunidade de documentar a atuação da diretoria da ATINI na área de articulação política. Filmou o diretor adjunto Eli Ticuna e o secretário geral Kakatsa Kamaiurá em audiência com o Secretário Nacional de Justiça, com o Presidente do Departamento de Saúde Indígena da FUNASA e com a assessoria do Ministro da Justiça. Em todos estes órgãos os diretores da ATINI apresentaram relatórios sobre o trabalho da organização e cobraram mais atenção no cumprimento das políticas públicas voltadas para os direitos das crianças indígenas.
Com certeza as férias de João Luiz serão inesquecíveis. Aos poucos, mais e mais profissionais vão descobrindo que o trabalho voluntário é uma excelente maneira de exercitar sua cidadania e também de alcançar crecimento e realização pessoal. A ATINI agradece a visita de João e torce para que ele tenha muito sucesso em seu trabalho de cineasta!
25/01/2010
YANOMAMIS EM CAMPANHA PELA VIDA
Os líderes organizam encontros e distribuem cópias do filme entre os novos "agentes de mudança". Dali eles saem, de aldeia em aldeia exibindo o documentário e conclamando o povo a abandonar a prática do infanticídio. Veja na foto abaixo uma destas reuniões, onde os líderes exibem orgulhosos as cópias do documentário e o equipamento usado para a projeção do filme nas aldeias. O impacto positivo causado por esta campanha está sendo surpreendente e as projeções já estão cruzando as fronteiras, alcançando até as aldeias da Venezuela.
Os Sanumá criaram até uma inovação nas exibições do documentário. A medida que o filme vai passando, um sanumá vai narrando a história e explicando aos ouvintes cada detalhe do que está acontecendo. Assim a mensagem fica ainda mais clara e envolvente e a platéia acompanha o desenrolar da história com gritos, palmas e outras demonstrações de apoio ao narrador.
A prática do infanticídio entre os yanomami tem sido fartamente documentada no decorrer dos anos. Segundo a revista Problemas Brasileiros, do SESC, 96 crianças indígenas foram enterradas vivas ou sufocadas com folhas por suas mães em Roraima no ano de 2004. Em 2003 foram 68 casos - Clique aqui obter para mais dados. De acordo com os profissionais de saúde que atuam nas áreas indígenas de Roraima, o infanticídio é a principal causa da mortalidade infantil. Algumas profissionais chegam a estimar que, para cada 5 crianças yanomami que morrem antes de completar 1 ano, 4 seriam casos de infanticídio.
A prática não é percebida como crime pelos yanomami, que encontram em sua visão de mundo diversas justificativas para o ato. Para entender as causas da prática do infanticídio nas tribos indígenas brasileiras, clique aqui.
A ATINI parabeniza a iniciativa dos líderes do povo Sanumá, que se apropriaram da mensagem de vida do documentário HAKANI e se tornaram verdadeiros agentes de transformação social nas longínquas florestas e montanhas de Roraima.
13/01/2010
Morre Zilda Arns

A ATINI lamenta profundamente a morte da Dra. Zilda Arns, pediatra e sanitarista, que através da Pastoral da Criança, órgão da Ação Social da CNBB, mobilizou centenas de voluntários no combate à pobreza e à desnutrição de nossas crianças. A ATINI se identifica com o trabalho da médica e ativista, que contribuiu para reduzir os índices de mortalidade infantil no Brasil e assim ajudar o país a avançar na conquista de pelo menos um dos 8 alvos do milênio.
Dra. Zilda visitava o Haiti em missão humanitária e faleceu em função do terremoto que atingiu o país na terça-feira, dia 12. Fica aqui nossa nota de solidariedade aos parentes, amigos e colaboradores desta brasileira exemplar, e o desejo de que os benefícios alcançados por seu trabalho possam também chegar até as crianças indígenas. Nosso desejo é que a altíssima e mal-explicada taxa mortalidade infantil nas áreas indígenas seja drasticamente reduzida.
Para que a redução da mortalidade infantil conquistada tão arduamente pelo trabalho da Dra. Zilda Arns chegue às aldeias indígenas, é necessário que a portaria 883, de 8 de agosto de 2008, que instituiu as Comissões Nacional e Distrital de Investigação e Prevenção do Óbito Infantil e Fetal Indígena, saia finalmente do papel em 2010. Enquanto isso não acontece, a mortalidade infantil nas aldeias indígenas continuará sendo um mistério.
"Com base no Censo Demográfico de 2000, pesquisadores do IBGE constataram que para cada mil crianças indígenas nascidas vivas, 51,4 morreram antes de completar um ano de vida, enquanto no mesmo período, a população não-indígena apresentou taxa de mortalidade de 22,9 crianças por cada mil. A taxa de mortalidade infantil entre índios e não-índios registrou diferença de 124%. O Ministério da Saúde informou, também em 2000, que a mortalidade infantil indígena chegou a 74,6 mortes nos primeiros 12 meses de vida. Curiosamente, nas notícias do IBGE e do Ministério da Saúde não há qualquer explicação da causa mortis. Muitas das mortes por infanticídio vêm mascaradas nos dados oficiais como morte por desnutrição ou por outras causas misteriosas (causas mal definidas - 12,5%, causas externas - 2,3%, outras causas - 2,3%)."
Marcelo Santos, em “Bebês Indígenas Marcados para Morrer” (Revista Problemas Brasileiros, SESC-SP, maio-junho/2007)
Leia aqui a íntegra da palestra que Zilda Arns preparou para apresentar no Haiti
11/12/2009
JORNALISTA INDÍGENA SELECIONADA PARA O PRÊMIO JOVEM DA PAZ BRASIL 2009

O Prêmio Internacional Jovem da Paz é um programa de incentivo a jovens que trabalham em favor da paz e desenvolvimento integral da humanidade. Esta foi a primeira vez que Curitiba organizou o Prêmio.
Na categoria Comunicação, foi selecionado o documentário “Quebrando o Silêncio”, que retrata o infanticídio indígena. O documentário foi produzido pela jornalista e documentarista Sandra Terena.

Entrevista com Sandra Terena:
Jornalista e documentarista
• De onde surgiu a ideia de fazer o documentário?
Há mais ou menos três anos, assisti a um documentário chamado Hakani, que fala sobre a história de uma indiazinha que foi enterrada viva. Fiquei chocada em saber que meus parentes indígenas ainda praticavam o infantícdio. Fiz uma pesquisa sobre o assunto e percebi que os órgãos oficiais sempre negaram a existência dessa prática.
Fui a fundo no assunto e fizemos entrevistas com indígenas de vários povos, principalmente no Xingu, e descobrimos que o infanticídio não é uma lenda. Por isso, achamos que um documentário baseado na linha do cinema verdade, com depoimentos reais, poderia desmitificar esse o assunto e provar que o sacrifício de crianças ainda é uma realidade. No entanto o que mais me chamou a atenção foi saber que parentes de todo o Brasil não querem continuar com tal prática. Por isso, precisam de políticas públicas para poderem criar seus filhos, principalmente os deficientes, que dificilmente sobrevivem em aldeias de difícil acesso.
• Qual a temática do seu documentário?
Infanticídio Indígena
• O que te motivou a participar do Prêmio?
Acredito que o prêmio pode dar visibilidade para o filme e sensibilizar as pessoas a apoiarem esta causa.
Saiba mais sobre o documentário aqui
24/11/2009
GAZETA DO POVO
“Não matem nossas crianças”
Documentário denuncia o infanticídio praticado por tribos indígenas. Os próprios índios têm se colocado contra a prática e pedem ajuda, mas a Funai se omite
Em julho de 2008, defensores de um projeto de lei que protege crianças indígenas portadoras de deficiência e que poderiam ser vítimas de infanticídio fizeram uma manifestação no Rio de Janeiro
Indígena por parte de pai, Sandra Terena ouvia-o desde pequena falar sobre a prática do infanticídio em diferentes aldeias do país, mas só se deu conta da gravidade do assunto já adulta. Quando há quase dois anos uma ONG brasileira e uma entidade evangélica dos Estados Unidos causaram furor internacional com um docudrama sobre a morte de crianças nas tribos amazônicas, Sandra já produzia seu próprio filme. Por fim, Quebrando o silêncio, documentário de 30 minutos, resultou do trabalho voluntário de cinco pessoas e de 80 horas de gravações ao longo de três anos em sete aldeias do país.
“Eu pensava que matar crianças era uma prática do passado, mas descobri que meus parentes, em algumas aldeias, ainda fazem isso”, lamenta Sandra, que na língua de sua tribo se chama Alieté. “Inocentes que não têm chance de escolher viver são sacrificados. Todo mundo sofre: sofre o pai, sofre a mãe, a criança e quem luta para que a criança não morra”, diz. Mas há um movimento contrário aos costumes: “hoje tem parentes que estão escolhendo vida para as nossas crianças.” A partir dessa constatação, Sandra apresentou o projeto ao casal de cinegrafistas André e Cristina Barbosa, que coletou depoimentos de indígenas no curso de quase três anos.
O documentário traz declarações de representantes de 12 etnias contrárias à prática do infanticídio, além do relato de sobreviventes e de pais que fugiram da aldeia para salvar os filhos. Crianças indesejadas são condenadas à morte por nascerem com deficiência física ou mental, serem gêmeas, filhas de mãe solteira ou tidas como portadoras de azar para a comunidade. São enterradas vivas, sufocadas com folhas, envenenadas ou abandonadas para morrer na floresta. A Atini – voz pela vida, organização sem fins lucrativos sediada em Brasília que atua na defesa do direito das crianças indígenas, identificou 18 etnias no país onde há essa prática.
Não há dados confiáveis sobre infanticídio, e a Fundação Nacional do Índio (Funai) diz se tratar de casos isolados, inexpressivos para justificar uma política de Estado. As 18 entidades que subscrevem o site www.hakani.org endossam dados que demonstram ser essa uma prática mais comum do que a Funai admite. “Muitas das mortes por infanticídio vêm mascaradas nos dados oficiais como morte por desnutrição ou por outras causas misteriosas”.
De acordo com essas entidades, encabeçadas pela Atini, pesquisa realizada por Rachel Alcântara, da Universidade de Brasília, mostra que só no Parque Xingu são assassinadas cerca de 30 crianças todos os anos. E de acordo com o levantamento feito pelo médico sanitarista Marcos Pellegrini, que até 2006 coordenava as ações do Distrito Sanitário Ianomâmi, em Roraima, 98 crianças indígenas foram assassinadas pelas mães ou por alguém da tribo em 2004. “Em 2003 foram 68, fazendo dessa prática cultural a principal causa de mortalidade entre os ianomâmi”, destaca o site.
“Tenho acompanhado essa situação do infanticídio. Isso não é de hoje que ouço falar. Vejo em várias comunidades. Alguns rituais são diferentes, em cada povo, mas na verdade tudo acaba na morte de uma criança”, diz Carlos Terena, organizador dos Jogos Indígenas. “Nosso povo jaminawa matava, e às vezes enterrava, assim, vivo mesmo. Às vezes pegava no nariz deles... matava”, conta uma índia dessa etnia. “Coisa triste mesmo. Que foi enterrado pequeno, rapazinho já. Não era mais criança, não. Eu mesmo vi isso”, relata no documentário o cacique Aritana Yawalapiti.
“Se criança nasce aqui dentro da comunidade, eles enterram”, diz Paltu Kamayurá, que teve um dos filhos gêmeos sepultado vivo. “Até hoje não esqueço, porque estou vendo o menino, o crescimento dele, aí eu penso no outro também. Agora meu pensamento não é mais como o deles, não é mais pensamento de antropólogo. Eles falam: ‘Deixa esses índios viverem assim. Essa é a cultura deles’. Não é. Porque a cultura não para. Ela anda. O pensamento também anda, igual à cultura”, observa.
“Há quem diga que essa prática faça parte da nossa cultura, e que por isso deve ser mantida. Mas desde quando uma cultura para no tempo? Por que a gente tem de continuar com uma prática que nos faz sofrer, que nos faz mal, que nos causa remorso? Vida não combina com morte. Será que para manter nossa cultura viva precisamos matar nossas crianças?”, questiona Sandra no documentário. “Mas lideranças indígenas têm levantado a voz contra a prática do infanticídio”, continua. Foi por essa razão que ela decidiu usar a formação em Jornalismo em favor dos povos indígenas.
Sandra agora busca apoio financeiro e logístico para exibir o documentário nas aldeias do país. Ele já foi exibido em setembro no Xingu, durante evento de mulheres indígenas. Quebrando o silêncio é um dos três finalistas na categoria “Reduzir a mortalidade infantil” do prêmio Voluntariado Transformador, promovido pelo Centro de Ação Voluntária de Curitiba. A cerimônia de premiação será amanhã, no Teatro Positivo.
Os sobreviventes

Marité e Tximagu Ikpeng tiveram de abandonar a aldeia, no Xingu, para salvar os trigêmeos.
No documentário Quebrando o silêncio, Marité relata como é o infanticídio entre seu povo. “Nasceu, já faz o buraco, já fica tudo preparado. Quando nasce, enterram a criança. Enterram vivo ou quebram no meio”, descreve. “A gente não queria perder os bebês. A gente ama as crianças”, diz. Por isso fugiram. “Se eu tinha de seguir as regras da cultura, não era bom para mim. Então falei: ‘vou quebrar essa regra e tenho que seguir outro caminho’”. Agora, sonha cursar Medicina para ajudar a aldeia, inclusive a mudar o pensamento.
O cacique Tabata Kuikuro também abandonou a aldeia para criar gêmeos. “Como posso deixar meu filho? Alguém vai fazer mal para ele, matando ele”, diz. “Eles são meus filhos, não são bichos”. Nem sempre o socorro chega a tempo. Marcos Mayoruna sobreviveu, mas o irmão foi queimado vivo aos 10 anos de idade. “Nós éramos gêmeos, e o cacique José interpretou errado. Mas meu próprio povo me condenou à morte”, diz. “Todos os indígenas que matam gêmeos ou deficientes sofrem depois que analisam por que mataram”. Adotado por um sargento do Exército, Marcos está há oito anos no Rio de Janeiro e faz faculdade de Enfermagem.
O infanticídio é particularmente doloroso para as mulheres. Lúcia Bakairi salvou o irmão do infanticídio ao enfrentar a mãe. “Minha mãe lutou para matá-lo. Ela saiu, foi embora para o mato. De lá ela veio para falar assim: ‘Ô criança, vai lá no mato, vai enterrar aquela criança’”, relata. Até mesmo quem não tem grau de parentesco se sensibiliza com os condenados. “Essa aqui é minha criação”, diz Kaiana Waurá, mostrando no colo a filha adotiva. “A mãe queria enterrá-la. A tia dela a levou para a casa da avó. Aí ficou cinco dias sem tomar leite. Aí, eu falei pro meu marido que vou criar ela”, conta. (MK)
Documentário criou polêmica internacional
Há um ano e meio uma ONG brasileira e uma organização evangélica norte-americana causaram uma discussão internacional ao produzir um misto de documentário e drama para uma campanha contra o infanticídio nas tribos da Amazônia. O vídeo enfureceu a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) ao retratar a história de Hakani, menina da etnia Suruwaha, uma das tribos às margens do Rio Purus que ainda praticam o ritual.
Lideranças indígenas pedem ajuda
Várias lideranças indígenas fazem ecoar pedidos de socorro ao longo de Quebrando o Silêncio. “A criança é o futuro dos indígenas. Devemos investir na vida deles. Devemos dar o direito à vida. Que ela viva, cresça e se torne um indígena que ame sua cultura e que saiba como trabalhar dentro da sua cultura e dentro do Brasil”, diz Eli Ticuna, vice-presidente do Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos. “É necessário que alguém corajoso se levante, para interferir nessas práticas culturais que são prejudiciais para a pessoa humana”, argumenta.
“Nós temos índios que recebem muita influência dos antropólogos, e acham que os costumes são intocáveis”, diz Álvaro Tucano, líder tucano no Amazonas. “O que é errado nós temos de corrigir. Nós temos de ter a capacidade de melhorar o nosso comportamento. E não continuar achando que aquele pajé está certo quando ele vai dar veneno só porque ele está fazendo bem para a sobrevivência do costume. Não. Ele está errado”, enfatiza. “Acho que a gente tem de saber modificar o nosso povo, consertando os erros internos.”
“A cultura é dinâmica. A cada momento muda a cultura, de geração em geração. Isso o antropólogo tem de entender, que a gente não perdeu a língua”, diz Marcos Mayoruna. “A gente não tem nada contra o antropólogo, só que ele interpreta errado. Alguns atrapalham, por exemplo, indigenista, Funai. Quero que a Funai entenda que tem de haver a mudança”, completa. (MK)
14/11/2009
"Se eu voltar para a aldeia vou ficar tão triste que vou tomar veneno."
O objetivo da comitiva era mostrar um vídeo gravado na aldeia suruwahá, no interior do Amazonas, no qual dois parentes pediam o retorno de Muwaji e de sua família. A pressão emocional foi grande, mas Muwaji permaneceu firme em seu propósito. Depois de assistir a filmagem e ouvir os argumentos da equipe, Muwaji respondeu simplesmente:
"Eu não vou voltar, vou ficar em Brasília. Minha filha não anda ainda, vocês não estão vendo? Se a FUNAI me levar de volta, minha tristeza vai ser tão grande que eu vou tomar veneno. Eu vou ficar aqui e as crianças vão ficar aqui comigo - são minha família e eu cuido delas."
Muwaji é uma mulher decidida. Nascida na tribo suruwahá, no interior do Amazonas, ficou viúva ainda muito jovem. Mãe de Ahuhari e da menina Iganani, aprendeu cedo a lutar pelo que quer.
Quando sua filha Iganani começou a apresentar problemas de desenvolvimento motor, Muwaji decidiu ir contra a tradição e manter viva a menina. Decidiu sair da aldeia num helicóptero da FUNASA para buscar ajuda na "medicina dos brancos". Logo descobriu que sua filha sofria de paralisia cerebral, uma doença grave, e que talvez nunca aprendesse a andar.
Muwaji conhece bem a tradição do seu povo e as condições de vida na sua comunidade. Sabe sabe que não conseguiria garantir a integridade física nem a dignidade de sua filha estando dentro da aldeia. Por isso decidiu ficar em Brasília por tempo indeterminado e lutar por tratamento médico para ela. Muwaji já mora em Brasília há 3 anos e Iganani é atendida pelo Hospital Sarah, onde é acompanhada por uma equipe de pediatras, psicólogos e fisioterapeutas. Além de Iganani, Muwaji cuida também de seu filho Ahuhari e de sua sobrinha órfã Inikiru. Inikiru perdeu o pai e a mãe, e foi adotada por Muwaji.
As três crianças estão saudáveis e felizes, frequentam a escola e praticam atividades de lazer. Conversam entre si na língua suruwahá e procuram manter a cultura e a identidade indígena, mesmo morando longe da aldeia. Muwaji tem orgulho de ser suruwahá e planeja um dia voltar. Segura, ela concluiu a reunião de forma taxativa:
"Quando eu quiser visitar meus parentes na aldeia, eu mesma procuro vocês. É só isso que tenho a dizer."
15/10/2009
UMA CHANCE PARA AS CRIANÇAS INDÍGENAS
CORREIO BRAZILIENSE
Danielle Santos - Publicação: 08/10/2009
Autora do vídeo, Sandra Terena defende assistência especialàs famílias que não aceitam mais essa crença.
Foto: Carlos Moura/CB/D.A Press
Brasília - O olhar triste dos índios Marité e Tixumagu da etnia Ikpeng, de uma aldeia do Xingu, no Mato Grosso, denota a desilusão em ter de abandonar os costumes da comunidade para viver na cidade em busca do novo.
O motivo da fuga está no colo do casal: os trigêmeos que nasceram este ano e que não foram aceitos pela comunidade por uma tradição cultural que acredita que filhos numa mesma gestação podem trazer azar. Para evitar o sacrifício deles, prática comum, a família teve de ser forte para seguir outro caminho. "Tenho certeza de que eles vão se orgulhar quando crescerem. Tenho orgulho de ter conseguido seguir com essa ideia e não deixá-los morrer", diz o pai.
O líder indígena Tabata Kuikuro, também da comunidade xinguana, foi tão firme quanto o casal Marité e Tixumagu ao saber que sua esposa deu à luz gêmeos, hoje com dois anos. "São meus filhos, como vou deixar alguém fazer mal a eles, deixar matar igual se mata bicho?".
Os dramas como o de Marité, Tixumagu, Tabata e Pautú se misturaram a tantos outros e viraram documentário intitulado "Quebrando o Silêncio". O material, colhido ao longo de três anos, com depoimentos de comunidades de diversas etnias, é de responsabilidade da índia Terena que resolveu pesquisar sobre o infanticídio pelas aldeias por onde andou. Mãe de um bebê de 1 ano e sete meses de nome Tenó, Sandra disse que sempre ouviu falar sobre o assunto quando pequena, mas não acreditava que ainda fosse comum em comunidades que já têm contato com os "brancos".
A jovem diz não querer mudar a concepção cultural e colocar a prática do infanticídio como crime, mas alertar para a necessidade de assistência especial às famílias que não aceitam mais essa crença dentro de suas comunidades. "Constatei que muitas famílias - a maioria jovem -, que estudam e trabalham fora da aldeia, não enxergam mais suas tradições como antes, e a pressão da comunidade as obriga a se encaixar numa situação que não tem mais fundamento para elas", diz Sandra.
Busca de apoio - A riqueza de detalhes contados em 80 horas de fita, três anos de captação e mais dois meses de finalização, rendeu o documentário de 29 minutos e virou meio para sensibilização e busca de apoio. Na última quarta-feira, Sandra enfrentou 22 horas de viagem até Brasília para mobilizar autoridades do governo e parlamentares. "Quero batalhar por ajuda em todos os lugares."
Narradora do documentário e fundadora da ONG indígena Sirai-i, Divanete da Silva, casada com um índio há 14 anos, adotou três crianças indígenas, filhas de pais diferentes, que seriam enterradas vivas. "No início, foi complicado levar esse assunto para as famílias, mas aos poucos fui conquistando abertura."
03/07/2009
TABU - Caso raro de trigêmeos entre ianomâmis mobiliza aldeia na Amazônia

SÃO PAULO e MANAUS - O nascimento de trigêmeos na aldeia ianomâmi de Ariabú, em Maturacá, no Amazonas, em meados de junho, foi motivo de apreensão entre os profissionais da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), responsáveis pela saúde dos índios da região. Crianças gêmeas concebidas por índias dessa etnia costumam ser vistas como fonte de azar para a aldeia, de acordo com a tradição ianomâmi. Para eles, os gêmeos têm a 'alma partida', e representam o bem e o mal. Como não dá para saber qual criança representa o mal, ambas são sacrificadas por abandono, sufocamento ou envenenamento. Bebês com deficiência física têm o mesmo destino. As mulheres ianomâmi são encarregadas do trabalho pesado, e não podem cuidar dos crianças com algum tipo de deficiência.
No caso dos trigêmeos, o desfecho foi diferente. Na aldeia de Ariabú, o tabu do sacrifício de crianças de 'alma partida' parece ter sido quebrado. O próprio pai insistiu em ficar com os bebês. E toda a comunidade já se dispôs a ajudar o casal na criação das meninas, que foram concebidas naturalmente, e nasceram de cesariana no Hospital de Guarnição, em São Gabriel da Cachoeira. Os bebês e a mãe, a índia Danila, agora estão na Casa de Saúde do Índio em Santa Izabel do Rio Negro e a alta deve ocorrer em duas ou três semanas. Além da ajuda da comunidade, a Funasa também vai mandar uma técnica em enfermagem para a aldeia.
" Foi muita sorte. Se tivessem nascido em outra tribo, elas talvez não tivessem chance "
- Se as meninas tivessem nascido entre os ianomâmi de Roraima, por exemplo, dificilmente teríamos conseguido atendê-las. Lá as tradições são preservadas. Mas as tribos do Amazonas são diferentes. A mãe das trigêmeas, Danila, até rejeitou uma menina que estava mais fraquinha, mas o pai insistiu que queria a criança e todas estão sendo bem cuidadas. As crianças vão para a aldeia assim que ganharem um pouco mais de peso - explicou Joana Claudete Schuertz, da Funasa de Roraima, responsável pelos índios ianomâmi da Amazônia. Segundo a funcionária da Funasa, a mãe tem outros sete filhos.
- Certamente ela vai precisar de ajuda e vamos acompanhar de perto. Mas o pai e o restante da família se comprometeram a ajudar - diz Joana, que afirmou ser o primeiro caso de trigêmeos que ela conhece entre os ianomâmi.
Joana diz ainda que as crianças estão bem e receberam muitas doações de fraldas e roupas.
- Foi muita sorte. Se tivessem nascido em outra tribo, elas talvez não tivessem chance - diz Joana, referindo-se ao tabu ianomâmi.
Casos como o da aldeia Ariabú, em que toda a comunidade rompe com tradições milenares, são ainda uma exceção entre os ianomâmi. Não há dados precisos sobre infanticídio entre tribos brasileiras, mas sabe-se que a maioria dos casos de morte de crianças com menos de um ano entre os ianomâmi acontece por esse motivo.
Em algumas tribos, os pais decidem enfrentar todo o grupo para quebrar o tabu e salvar os filhos, já que o sacrifício de crianças acaba provocando depressão no casal e, no limite, até casos de suicídio. Em março, uma menina ianomâmi da Amazônia, de um ano , vítima de hidrocefalia, também foi motivo de polêmica entre médicos e a Fundação Nacional do Índio (Funai). A criança foi internada com tuberculose e pneumonia, além da hidrocefalia, e foi mantida internada no hospital contra a vontade da família.
Os pais e a Funai pediam que o bebê fosse levado de volta à aldeia, apesar do risco de ela não resistir sem tratamento adequado. Segundo os pais, ela deveria ser tratada pela medicina indígena. Havia ainda o medo de a menina ser sacrificada por conta do problema. A Funai recorreu à Justiça, assegurando que ela não seria sacrificada e afirmando que os direitos dos índios estava sendo desrespeitados.
A Justiça negou a volta à aldeia, mas determinou que a criança fosse transferida para uma unidade de Saúde mais próxima da tribo. Desde abril, ela também está na Casa de Saúde do Índio de Santa Izabel do Rio Negro. Apesar de ter uma saúde frágil, a criança tem todo o acompanhamento médico necessário e a família está por perto na Casa de Saúde. Foi outro final feliz.















